quarta-feira, 15 de setembro de 2010

José Alfredo Schierholt foi o Patrono da Feira do Livro de Lajeado



















José Alfredo Schierholt e Gerson Lopes Teixeira (Secretário de Cultura e Turismo)

ALIVAT Presente na Feira do Livro de Lajeado
















Continuação Capas Livros e Periódicos



5)     Sonho de Chocolate -2001 






6)     Tia Chica: Outras histórias -2003 





7)Participação em Coletâneas 



a)Famílias Italianas de Lajeado :Sua Vida e Suas histórias – 2003 







b)Escritos /Escritores  Coletânea -2007




8)Participação em Periódicos 

a)     Revista da SBEM –Rs – 2001 





b)     Revista Nodos Y Nudos – Bogotá – Colômbia 2002





c)     Revista Nodos Y Nudos –Bogotá – Colômbia – 2005





d)Revista IberoAmericana de Educación – Madri – Espanha – 2007





e) Revista Zetetiké  -Campinas – São Paulo – 1º Semestre 2008





f) Caderno Pedagógico – Lajeado – Rio Grande do Sul  1º Semestre de 2008









Capas de Livros e Periódicos de Ana Cecília Togni

LIVROS PUBLICADOS  


1)     Histórias da Tia Chica -1991






2)     Bichinhos de Infância -1993 





3)     Lapine e Lapinova – 1996 






4)     O Menino e as Borboletas -1996


sábado, 11 de setembro de 2010

Algumas Histórias de Ana Cecília Togni

A BOLA MÁGICA
                                              

              Certo dia, Guilherme estava em seu quarto para fazer os trabalhos de casa que a professora havia mandado. O menino não estava com muita vontade – aquilo era uma chateação – ele queria mesmo ir para fora jogar futebol e brincar com os amiguinhos. Mas, seu pai disse ao sair :
         -Primeiro a lição, depois a brincadeira.
        Ele fez todos os exercícios e saiu para procurar os amiguinhos para brincar. Mas, parece que naquele dia todos tinham uma coisa para fazer e o menino acabou sozinho. Então, ele pensou :
                - “Puxa vida, ninguém para brincar ,só me resta voltar para casa e assistir televisão”.
         Quando ele ia voltando , triste, para casa, pois estava perdendo aquele bonito dia de sol, aconteceu uma coisa estranha : próximo à sua casa, há um terreno cheio de capoeira e pedras e, entre estas, meio escondida, ele viu uma velha bola de futebol, toda murcha e já sem cor.
         Ele ficou com pena e pensou : “Vou levá-la para casa, limpá-la e consertá-la”.
         E, lá se foi ele , com a bola embaixo do braço. Entrando em casa, levou-a para o tanque de lavar roupas, esfregou-a bem e colocou-a no sol para secar.
       Quando seu pai chegou, ele pediu :
        -Pai arruma esta bola para mim?
         O pai olhou a bola e respondeu :
                -Você já tem tantas bolas! Essa nem dá para consertar!
      Mas, o menino insistiu, bateu pé até o pai resolver atender o seu pedido, buscou uma bomba de encher pneu de bicicleta e encheu a bola, que ficou com uma aparência bem melhor, limpa e bem cheinha.
        Guilherme brincou um pouco com ela e depois a levou para o quarto, pois tinha de ir para a escola.
              À noitinha, quando voltou para casa, foi procurar sua nova amiga e, ao abrir a porta do quarto, arregalou os olhos com o que viu : bem ali, na sua frente, havia uma “guerra” de brinquedos.
          “A bola” comandava, pulando de uma para outra parede; os bonequinhos, “os comandos em ação” lutavam entre si, ou corriam uns atrás dos outros; os carrinhos e jipinhos deslizavam velozmente pelas paredes e pelo chão; livros e cadernos faziam pares com lápis e canetas, dançando uma música maluca, que era executada por um par de luvas de goleiro, no órgão eletrônico.
        O menino ficou parado na porta e a “bola” veio ao seu encontro dizendo :
           -Não se assuste! Entre e venha brincar conosco! Eu explico tudo para você.
           Então, ela falou :
                    -Fui fabricada há bastante tempo, num lugar longe daqui.Com uma porção de outras bolas, fui para uma loja, mas como não era muito bonita, fui ficando lá. Todas as outras foram vendidas e eu fiquei sozinha. Acabei indo parar no depósito.
            Um dia, estava num canto bem escuro quando , de repente, não sei vindo de onde, apareceu um gnomo que me falou que, já há algum tempo, me acompanhava.
            E disse, ainda , para eu não ficar triste, que um dia eu encontraria alguém que gostasse de mim e seria meu amigo, então, eu poderia ser feliz e até falar.
           O tempo passou , um dia fizeram limpeza no depósito e me levaram junto , com o resto da sujeira. E, quando passávamos aqui perto , caí do caminhão e você me achou. Como mostrou que gosta de mim a mágica funcionou.
         O menino estava maravilhado e, então, “a bola” ainda disse :
                -Não conte isto para ninguém e você não precisará ficar mais triste.
         Quando seus amiguinhos não puderem brincar com você, eu estarei aqui e, nos jogos de futebol, leve-me sempre com você, pois quando você jogar no ataque faremos belos gols juntos e , quando você jogar como goleiro, irei , bem direitinho , parar em suas mãos , para depois ficar bem juntinho do seu coração.
         E , assim aconteceu , daquele dia em diante e,até hoje, a velha bola e o menino formam uma dupla imbatível nos campos de futebol da vizinhança.



 VOVÔ MOISÈS


                        Hoje, 1992, se entrássemos numa máquina de tempo e a programássemos para retornar a Lajeado de 32, 33 anos atrás, o que veríamos?
                        Uma cidade bem pequena começando a progredir, ruas sem calçamento, o Rio Taquari limpo, sem poluição, o Parque Municipal junto ao Clube Tiro e Caça com seu lago e sua pequena cascata de água fresquinha.
                        É história desta época que quero lhes contar.
                        É nesta cidade, que um grupo de crianças viveu muito feliz, foi à escola, andou de carrinho de lomba, e também foi a matine num cinema que se chamava Avenida.
                        Mas, essa turma de meninos e meninas gostava muito de brincar pelas ruas e foi numa dessas aventuras que aconteceu um fato que a tornou muito especial.
                        Senão vejamos: um dia cansados das brincadeiras de rotina, resolveram fugir dos olhares atentos das mães e explorar um pouco mais a cidade de que tanto gostavam. Saíram fugidos, acompanhados de um cão Pastor Alemão chamado Rin-Tin-Tin, após andarem pelo Parque Municipal e explorarem o velho moinho com sua roda d’água e seus pequenos martelinhos musicais, um deles disse:
                        -Vamos subir por esta rua para ver onde vai dar?
                        Uns queriam ir, outros tinham medo, após discutirem o assunto por alguns minutos, todos acabaram concordando e lá foram eles, como um pequeno bando de exploradores, subiram a rua, tropeçavam, olhares espantados, tudo era diferente para eles. Caminhavam, os maiores levando os menores pela mão, jogavam pedrinhas e colhiam florzinhas nos terrenos baldios, onde hoje existem belas casas, a rua que era então diferente chama-se hoje Lothar Felipe Christ.
                        E, eis que de repente, aconteceu o inesperado, ao passarem diante de uma casa quase no fim da rua se surpreenderam com o que viram, um senhor de pele bem escura, cabelos já branquinhos que naquele momento estavam cobertos por um chapéu, estava ali a tomar sol daquela linda manhã. O grupo se assustou um pouco a principio, mas, ele lhes sorriu mansamente e eles responderam ao cumprimento e foram indo embora ruidosos como sempre. Após algum tempo, retornaram para casa e contaram para as mães a sua aventura, descobriram então que aquele senhor chamava-se Moisés Cândido Veloso, mas para eles, a partir daquele dia, passou a ser apenas o Vovô Moisés, que eles muitas vezes voltaram a visitar nas suas explorações e aventuras.
                        Se a máquina do tempo do início de nossa história voltasse agora para 1992, encontraríamos aquelas mesmas crianças, hoje adultos, alguns em Lajeado, os outros em diversas cidades do Brasil e se perguntássemos a cada um deles como você lembra do Vovô Moises? Eu tenho certeza de que todos lembrariam dele com muito carinho e um afeto muito grande, pois naquela época nenhum deles sabia da sua cultura, da sua vontade de ensinar aos outros o que sabia, nem que era um grande músico, nem que com uma determinação constante fundou um jornal, e que também tinha como ofício acender lampiões de gás que iluminavam as ruas, nada disso sabiam, sabiam apenas que era um avô muito querido que eles aprenderam a conhecer e respeitar, pela sua simplicidade e seu jeito de falar. Lajeado hoje é bem diferente, uma cidade que cresce, as ruas tem calçamento e até asfalto, as crianças quase não brincam e correm por elas. A antiga casa do Vovô Moisés, também não existe mais, mas, agora há outra casa maior, que não é a dele, onde um pequeno grupo de crianças ficava no pátio para ouvi-lo, mas, que leva seu nome e onde muitas crianças adquirem conhecimentos que ele tanto queria que todos tivessem.
                        Esta é a história que eu queria lhes contar, a história de um homem bom, culto, e que ao doar seu terreno para a construção de uma escola, deu oportunidade para as crianças daquele tempo e para todas as outras que vieram a seguir e que ainda virão, transformarem-se nos adultos de hoje e de amanhã que continuarão preservando e honrando o nome deste homem tão importante para Lajeado, mas que será sempre para mim e minha turma de infância o “Vovô Moisés”.


 O BALÃOZINHO AMARELO

            Era um dia de festa,naquela pequena cidade.Nas ruas,todos corriam para terminar de limpar  e enfeitar suas casas.
            No meio desta confusão toda,parado em uma esquina,um vendedor enchia de gás várias bolas coloridas e,outras tantas de formas variadas.Enchia-as e formava um feixe.
            De repente,numa lufada de vento,uma delas se soltou e começou a subir em direção ao céu.Era um balão bem amarelinho.
            Ao ver-se livre das amaras,ficou deslumbrado:viu árvores,lagos e brincou de esconde-esconde com os pássaros que voavam por ali.
            Mas,depois de experimentar coisas tão diferentes,começou a sentir-se sozinho;Então pensou: “não posso ficar assim para sempre,tenho que procurar um amigo.”
            Começou então a descer para perto dos telhados das casas,mas,ali,também não viu ninguém.
            Voou então,aproximando-se de um poste,atraído pela luz,pois já estava escurecendo.
            Balançou-se de um lado para outro e, do lugar onde estava,conseguiu espiar por uma janela.Lá dentro,uma menina lourinha brincava no chão.
            O balãozinho amarelo esperou outra lufada de vento e foi até lá,colocando-se junto aos outros brinquedos.Não se sentia mais sozinho,tinha ali animaizinhos diversos,bonecos,bolinhas e aquela menina loura,que ele descobriu chamar-se Camila e que bagunçava tudo.
            Daquele dia em diante,para espanto da vizinhança,de vez em quando,se o sol estiver brilhando e houver um bom vento,por aquela janela, saem para passear um balãozinho amarelo e uma linda menina lourinha de cabelos cacheados.
            E, quando anoitece,depois de perambular pelo céu,brincar com nuvens e pássaros,eles voltam felizes para casa.

O PEIXINHO VOADOR


     Tavico é um garoto esperto e adora brincar.
            Seu pai gosta muito de pescar e, certo dia,quando pescava num grande rio,entre os peixes que vieram com a rede,estava um peixinho bem pequenininho.
            O pai de Tavico pensou:
            “É muito pequeno para comer, vou devolvê-lo à água do rio,onde possa nadar e crescer.”
            Mas, aí ele lembrou do filho e disse para um amigo que estava junto :
            -Vou por este peixinho numa latinha com água e levá-lo para o Tavico.
            O amigo concordou,pois o peixinho era realmente muito bonitinho e colorido.
            À tardinha,após terem pescado bons peixes,os amigos retornaram para casa e, ao ouvir o barulho do carro do pai chegando,Tavico correu para a porta e, ao abraçar o pai este lhe disse :
            - “Tavico venha ver o que eu trouxe para você.”
            O menino espiou dentro da latinha e começou a bater palmas de contentamento ao ver o peixinho.
            A mãe do menino preocupou-se ,pois o peixinho não poderia ficar na latinha onde tinha vindo e por isso  providenciou um aquário, onde colocou pedrinhas e plantas verdinhas e, lá , o peixinho foi posto para morar.
            O pequeno peixe estranhou aquele local, era diferente do rio,bem menor,mas a água era limpa e dali ele podia olhar ao redor e ver a sala onde a família de Tavico costuma reunir-se.
            Mas,além de arrumar o lugar para o peixinho ficar,era necessário alimentá-lo,o menino perguntou à mãe :
            -O que vamos dar para ele comer?
            Dona Maria (mãe de Tavico) pensou um pouco e decidiu :
            -Vamos dar a ele farelinhos de pão e, amanhã ,vamos ao mercado comprar comida de peixe.
            No outro dia ,assim o fizeram e, quando foram ao aquário para dar comida ao peixinho, levaram um susto – ele não estava mais lá -.
            Procuraram daqui e dali e, o encontraram embaixo do sofá.
            Como teria ele ido parar ali?
            Recolocaram-no no aquário e, enquanto conversavam, aconteceu de novo, isto é,viram o peixinho saltar do aquário.
            Mais uma vez , Tavico ajuuntou o peixinho e o colocou na água.Tudo ficou calmo de novo.
            No dia seguinte, quando o menino foi dar comida ao peixinho, este nadou  até a superfície do aquário pra pegar a comida e, o menino começou a falar com ele :
            -Por que você gosta de saltar para fora do aquário?
            Aí para sua surpresa,ele olhou para o peixinho, que mexia a boquinha, e falava como se fosse gente :
             -Eu sou um peixinho voador, uma espécie bem rara, moro no fundo dos grandes rios e só apareço na superfície ,de muito em muito tempo, e somente posso revelar isso para pessoas muito especiais assim como você.
            E, continuou falando:
            -Por isso,não se espante se algumas vezes você me encontrar no chão, por aí, ficar aqui é muito bom, mas, vou lhe pedir um favor,assim que tiver oportunidade me leve de novo para o rio, lá é o meu lugar.
            O menino ficou espantado com tudo aquilo, mas, apesar da tristeza,alguns dias depois pediu ao pai que o levasse juntamente com o peixinho até o local onde ele o tinha encontrado.E, assim foi feito.
            Quando lá chegaram, Tavico pegou o  peixinho do aquário e, o estava colocando  na água do rio, quando este, novamente falou :
            -Aguarde aqui,vou chamar minha mamãe.
            Tavicou esperou.Daí a pouco, apareceu  a Sra Peixe – linda grande e colorida como o filho – esta então lhe disse :
            -Você foi amigo de meu filho, por isso quero lhe dar um presente, que para nós é muito especial.
            Então mexeu com uma de suas nadadeiras e ali estava uma pequenina pedra ,bem branquinha.
            E, ela prosseguiu:
            -Apanhe esta pedrinha, e quando você estiver por aqui e , precisar de ajuda, segure-a firmente em sua mão e isso será um sinal,  para que possamos vir em seu socorro.
            Tavico guardou a pedrinha com cuidado ,enquanto a Sra. Peixe mergulhava no rio acompanhada alegremente por seu filhinho.
            Passados alguns dias,Tavico foi  pescar com o pai naquele mesmo lugar, e, com saudade do peixinho, apertou em sua mão com bastante força a pedrinha branca.
            E, para sua surpresa , uma família de peixes apareceu para vê-lo,papai peixe, mamãe peixe e o peixinho que disse também estar com saudade.
            Eles ficaram por ali um pouquinho e lhe disseram  que sempre que quisesse era só chamar que eles viriam .
            Tavico ficou vendo-os mergulhar e guardou a pedrinha  com cuidado,pois  ela era a maneira que ele tinha para chamar aqueles queridos amiguinhos que moravam tão distante, lá bem no fundo daquele grande rio.       

segunda-feira, 6 de setembro de 2010

ALIVAT tem sede no Parque Histórico de Lajeado



Marcos Rogério de Castro Frank



    Nasceu no dia 25/11/1967 em Ijuí / RS. Filho de Wilson Frank e Nilda Oliveira Castro, irmão de Márcio e Franciele.
    Estudou até a 3ªsérie do Curso Fundamental, na Escola Estadual São Geraldo, Ijuí, e completou seus estudos, até o segundo grau, no Colégio Evangélico Augusto Pestana(CEAP), também em Ijuí.
    Em 1986 foi aprovado no vestibular de medicina na Universidade Federal de Santa Maria (UFSM) e em 1991 classifica-se em primeiro lugar para a residência médica  em neurocirurgia no Hospital Cristo Redentor.Em 1996 muda-se para Lajeado/RS,onde passa a exercer a atividade de médico.
    Iniciou sua carreira literária ainda na escola, participando de concurso de redações. Na universidade foi premiado em vários concursos literários. Seu primeiro livro, uma coletânea de poesias, contos e crônicas foi lançado em 1990. O segundo livro, ”Sempre aos Sábados” foi lançado em 2006.
    Desde 1997 faz parte dos colaboradores do Jornal O Informativo do Vale, como cronista, mantendo sua coluna, semanalmente, na página dois da edição dos sábados.
    É casado com Lucinéia Brandão e pai de João Guilherme (12/04/1989) e Cecília (22/11/2007).
    Em 2008 foi eleito presidente da Academia Literária do Vale do Taquari (ALIVAT). 


OBRAS 


O ÚLTIMO ENCONTRO (Conto)
  
       Montado em seu cavalo,Miguel observa a vasta extensão da pampa prolongando-se até o ponto que seus olhos perdem o foco. Sentia-se bem com o vento batendo e desalinhando seus cabelos. Seu rosto mantinha o eterno ar desiludido de quem conhece por demais as armadilhas do mundo.
       Os peões das fazendas por onde passava não o entendiam bem. Andar montado em um animal sempre de um lado para o outro,sem paradeiro certo, vá lá. Mas dizer que o mundo é redondo feito uma bola e solitário que nem uma vaca no campo já era demais. Isso já era zombar do conhecimento da gente simples. Ele ainda dizia mais. Afirmava com convicção que os donos das terras o eram por esperteza e não por vontade de Deus. Os comentários porém não afetavam Miguel,ele sabia o preço a pagar por suas idéias.
         Naquela noite armou acampamento embaixo de um umbu sexagenário. Dormiu ao ar livre olhando as estrelas como sempre fazia. Não muito longe dali uma coruja parecia incomodada com algo. Acordou sobressaltado no meio da noite pensando ter ouvido vozes. Com dificuldade percebeu dois vultos na escuridão discutindo calorosamente.
         -Putz, pensou,isso não se parece nada com um pesadelo.
         Com esforço distinguiu a figura alta de Bento Gonçalves e o perfil barbudo do Duque de Caxias fazendo o balanço da revolução farroupilha. Imediatamente ele lembrou da antiga lenda sobre o encontro dos dois fantasmas na primeira noite de lua cheia para discutirem sobre suas lutas e seus ideais.
          -Mas então é verdade--concluiu Miguel com indisfarçável assombro.
          Ao fundo ouvia-se a voz de Bento.
          -Libertamos os escravos e vocês continuam fazendo a todos de escravos.
         -Ora meu caro,bem sabes que é impossível uma sociedade sem vencedores e derrotados-retorquiu o duque. Passaram-se tantos anos desde que nossos corpos viraram pó e continuas um sonhador. Sorte tua não ganhar a guerra e ter que governar o novo país que então se formaria. Aí sim teria que lidar com a realidade de quem chefia e não com os sonhos que iniciam uma revolução.
         -E tem mais,continuou Caxias, após uma pausa para pensar. Seus escravos libertos serviram muito mais como uma maneira de cobrir vossa luta de ideais. O que querias era atrair para o teu lado a força dos explorados e o apoio dos liberais abolicionistas. Queria ver a cara que eles fariam quando,cansado dos ideais democráticos e louco para botar tuas idéias em prática,te tornarias no ditador que sempre sonhou ser.
         Sobre corpos destroçados e ensangüentados repousa a glória da guerra-disse Miguel juntando-se aos dois homens e oferecendo a Bento Gonçalves um gole de cachaça. Este tomou um gole comprido e cuspiu as últimas gotas fora.
         -Pro santo,explicou,para logo depois emendar com uma voz de desilusão- Degolamos e roubamos com fúria,amamos nossas mulheres amando no fundo a nós mesmos. Empobrecemos os velhos,deixamos órfãs as crianças e enlouquecemos os lúcidos para depois,entre sorrisos e apertos de mão,selarmos uma falsa paz e propagandearmos nossas qualidades.
         Caxias a tudo ouvia em silêncio. Com uma expressão de desencanto,parecia concordar com as idéias do antigo rival. No fundo eles sabiam que deviam a fama que tinham entre os vivos,um ao outro.
         -O homem é a única criatura que se recusa a ser o que é.Disse Miguel com  lucidez que surpreendeu os dois homens. Com os primeiros raios do sol,as imagens de Bento e Caxias foram se dissolvendo lentamente e sendo substituídas pelo vapor que fugia pelo bico da chaleira. A conversa entre os dois continuaria na próxima lua cheia. Miguel sabia que nunca mais participaria dela,mas sentia-se estranhamente feliz,sorvendo o primeiro amargo do dia.
         Finalmente ele tinha certeza que sua luta-a libertação do indivíduo-não interessava a nenhum dos lados que fazem as guerras. Até que enfim ele podia descansar em paz e fundir-se com a terra que tanto amara e defendera. Longe dos dois homens ele pensou mais uma vez na frase que dissera um dia,com o peito cheio de orgulho e que acabou por provocar sua despedida do mundo dos vivos:
         -Essa terra tem dono.  



VAMOS A LA PLAYA-ANO 4

                “O brasileiro é o único ser humano que acredita que pode se aperfeiçoar.” Millôr Fernandes (1924--)

   O gaúcho, esse centauro dos pampas, é um ser obstinado. Mesmo vivendo numa terra inóspita, quase nos limites do mundo civilizado e sujeita a temperaturas extremas ele insiste em demonstrar em seu amor a terra natal. Tal se dá nos primeiros meses do ano,quando o bom senso indicaria uma migração para o estado imediatamente mais ao norte,mas ele insiste em se banhar nas águas da terra natal.
   Quando chega dezembro, nossos conterrâneos iniciam o planejamento de sua mudança rumo as bordas arenosas do Atlântico. Mesmo com o aumento extorsivo do IPTU e com os preços absurdos do IPVA, sempre  poupa-se  alguma sobra para o tal veraneio.
   O incrível fenômeno se repete ano após ano, apenas mudando a data em função de eventuais greves do magistério estadual ou das universidades federais. O meticuloso planejamento também leva em conta a chegada, ou não, de uma horda de bárbaros meridionais conhecidos genericamente como “hermanos”. Parece que sua presença maciça tem o poder de inflacionar o mercado local. Finalmente ainda há a presença de um vento alísio, temível e imprevisível, conhecido dos locais como “nordestão”. Sua presença por si só pode transformar agradáveis férias em pequenas tragédias.
   Tal epopéia migratória que só tem paralelo com a inacreditável marcha dos pingüins, parece ser generalizada e atinge até mesmo os mais distantes rincões do Rio Grande do Sul.
   Passada a fase de planejamento inicia o frenesi. Enquanto os pais de família revisam a condução familiar, as mães acumulam víveres e suprimentos para a longa jornada. Ainda são desconhecidos os motivos, mas apesar de haver modernos supermercados a beira- mar, nossos migrantes insistem em adquirir seus mantimentos na cidade natal. Nesse período, talvez devido ao rescaldo natalino, aumenta o espírito gregário desse bravo povo sulista de modo que tios, primos, avós e toda sorte de parentes são arrastados juntos para veranear.
   Concluídos os preparativos, começa a longa jornada por estradas esburacadas, pedágios reajustados e pardais traiçoeiros. Chegando ao destino enfrentarão cidades despreparadas, mercadores inescrupulosos e milhares de adolescentes dando vazão à seus hormônios.Nada porém será capaz de abater o animo destes bravos.
   Enfim instalados e claro, precavidos contra os amigos do alheio, resta apenas relaxar e encontrar um pedaço de areia livre dos totós e dos jogadores de frescobol. Besunta-se então o corpo com um liquido branco vendido a preço de ouro, abre-se uma cerveja e conclui-se que tudo valeu a pena.
   É por isso que nenhum outro povo desse planeta ama tanto suas praias como o gaúcho.
  


  COMO GANHAR DINHEIRO

    “Quando se fala sobre bancos e assaltos,pergunte logo:de fora pra dentro ou de dentro pra fora?” Millôr Fernandes(1924) 
     Não há nenhuma dúvida, após a divulgação dos últimos balanços, de quem realmente sabe ganhar dinheiro no Brasil. Bradesco, Itaú, Unibanco e até o Banco Do Brasil tiveram lucros recordes. Esquecidas aquelas bobagens antigas do tempo de oposição e de bravatas, dá para perceber que Lula sabe conviver democraticamente com bancos, grandes empresas de teledifusão (leia-se Rede Globo) e de telecomunicação. Aprendeu até a tolerar o lucro,tanto que seu filho, um gênio dos negócios como o pai,saiu-se muito bem ao lidar com a Telemar.
     Eu, que sempre fui a favor da liberdade econômica, do lucro e da iniciativa privada, resolvi entender como essas magníficas empresas conseguem lucros extraordinários enquanto nós meros mortais,só sabemos é reclamar. Após estudar longamente as técnicas que essas empresas usam para obter balanços tão robustos, finalmente entendi e resolvi mudar o meu modo de trabalhar. Hoje percebo de forma clara porque eles sabem ganhar dinheiro e eu não. Creio que com as mudanças que enumerarei abaixo, copiado das grandes corporações, finalmente passará a chover na minha horta.
     A partir de agora,todo mês meus clientes passarão a pagar uma taxa pela existência do consultório. Entendam bem, essa taxa não dá direito a nenhum serviço extra, apenas serve para manutenção do consultório aberto em horário comercial. Utilizar o consultório durante o mês corrente gera uma cobrança extra, a taxa de utilização do consultório. Todos os clientes, sem exceção devem realizar o pagamento da primeira enquanto que a segunda será devida somente por todos aqueles que efetivamente o utilizarem.É uma questão de justiça.
     As dúvidas sobre medicações, tratamentos, doenças  e mesmo resultado e comentários sobre exames serão atendidas através de um número de contato 0300.Funcionará 24 horas e custará apenas uma módica quantia por minuto mais impostos. Haverá um leve acréscimo em feriados,sábados,domingos e após as 18 horas. Não vejo a hora de receber a primeira ligação.
     Laudos e atestados serão cobrados por unidade, será a taxa de emissão de laudo ou atestado, de maneira análoga ao pagamento bancário de extrato de conta corrente. Meus clientes poderão optar, no entanto, por um pacote de serviços. Ele custa o triplo mas dá direito a dois atestados ou laudos por mês,uma ligação semanal para o 0300 de dois minutos e substitui a taxa de existência ,de manutenção e de utilização do consultório. Claro que a segunda opção sai muito mais em conta.
     Continuaremos aceitando cheques pré-datados para pagamento. Mas eles estarão sujeitos a uma taxa de abertura de crediário (parece-me desnecessário informar que se trata de uma operação de crédito) e uma taxa de confecção de cadastro. Obviamente tais cobranças se repetirão a cada novo cheque pré-datado emitido. Aceitamos também cartões de crédito de todos os tipos, mas seremos obrigados a repassar aos queridos clientes os valores cobrados por cada operadora bem como os impostos.
     Como todos sabem cada paciente, digo cliente, possui um prontuário médico. Os novos clientes precisarão pagar uma taxa de abertura de prontuário que será cobrada apenas uma vez. Por sua vez a taxa de manutenção de prontuário será cobrada mensalmente.
     Sabedores que a escolha do médico é uma opção do cliente (brilhante essa),manteremos um serviço de reclamações. Ele foi terceirizado com uma empresa de call-center (chique não é mesmo) de Goiânia e o número é o mesmo do 0300.Nosso cliente pode desabafar e falar o quanto quiser. A propósito,a tarifação será por minuto também.
      Pacientes que necessitarem internação não precisam se preocupar. Eles necessitam pagar apenas uma taxa de deslocamento, diária é claro, apresentar-se ao hospital às 8 horas da manhã e aguardar até 72 horas pelo comparecimento do médico. Não estar no quarto na hora da visita gera uma nova taxa de deslocamento.(Essa eu aprendi com as seguradoras) Eta povinho esperto e bom de negócio que nem os bancos e as companhias de telefonia.
     Claro que recebi conselhos de não seguir em frente, gente dizendo que a cultura arraigada de nosso povo não iria aceitar de bom grado novos procedimentos. No fundo é tudo gente sem imaginação, ciumenta e invejosa. Se nosso povo aceita tão pacificamente a cobrança de tantas taxas e impostos, compreensivo que é, porque iria começar a espernear justo agora?



Nara Teresinha Knaack



 Nara T. Knaack nasceu no dia 06.01.52, em Cruzeiro do Sul / RS. Filha de José Mário e Talita Maria Sulzbach e irmã de Álvaro (falecido) e José Mário Sulzbach Júnior.
               Estudou até a 3ªsérie do Curso Fundamental, na Escola Estadual Fernandes Vieira, Lajeado, e completou seus estudos, até o Curso Normal, no Colégio Madre Bárbara.
               Casou-se em 1972 com Antônio Carlos Rodrigues Knaack, com quem teve dois filhos: Josué (35 anos) e Josias (29 anos).Hoje avó de dois netos: Matheus e Lucas Knaack, bem como Mateus Borges, Guilherme Moerchbacher e Luís Gustavo Araújo que os considera netos do coração.
               Iniciou sua carreira literária nos bancos escolares, no Madre Bárbara, vencendo concurso de poesia e contos. Seu sonho de escritora concretizou-se em 29.05.1992. Com o lançamento do livro “Por Minhas Mãos”. Em 08.10.1993 lançou “Palavras do Tempo”. Participou de duas Antologias Poéticas, em nível nacional e de Mercosul – “Mulher Poeta” – 1993 - lançamento na Casa de Cultura Mário Quintana, Porto Alegre, em 18. 06.93 e “Pulsações Reunidas”, em 1995.
               Em 2000, foi convidada a fazer parte dos colaboradores do Jornal O Informativo do Vale, como cronista, mantendo sua coluna, semanalmente, na página dois até hoje.
               Sua carreira profissional teve início em 1977, na Escola municipal Alfredo Lopes da Silva, em Lajeado – escola que leva o nome do seu bisavô materno. Em 1978 e 1979, trabalhou na Escola Particular José Bonifácio, de Conventos - hoje Sinodal. Em outubro de 1979, iniciou suas atividades na 3ª Coordenadoria de Educação, Estrela, permanecendo até 1993, Trabalhou também, de 1986 a 1991 na Secretaria Municipal de Educação de Lajeado.
               Em maio de 1993, iniciou suas atividades no Colégio Estadual Presidente Castelo Branco, Lajeado, como contadora de história - Hora do Conto, sendo carinhosamente chamada de “Faísca”. Mais tarde assumiu a disciplina de Ensino Religioso, na qual atua até hoje, abrangendo os Cursos Normal, Fundamental e Médio.
               Em 1997, foi convidada a participar do corpo docente da Escola Particular João Batista de Mello, também na disciplina de Ensino Religioso.
               A professora/ escritora ministra palestras para adolescentes, nas diversas redes de ensino, bem como conta histórias, desenvolvendo exercícios lúdicos, abrangendo, com este trabalho, vários níveis de ensino. Já participou de várias Feiras de Livros organizadas pelas Prefeituras Municipais, Escolas Particulares e Estaduais, do Vale Taquari e também Porto Alegre.A escritora tem como fonte geradora de entusiasmo a esperança e a coragem, muito amor e exemplos deixados por seus pais.

Rua Leopoldo Sulzbach, 47- Lajeado - tel. 3748-3517 - 9223-4376.


OBRAS DE NARA KNAACK 

Livro Por Minhas Mãos

Lançamento: 29.05.1992.
Poema de abertura;
Capa: Mistes S. Suzlbach Rodrigues - minha prima

Por Minhas Mãos, Senhor!

Em tuas mãos entreguei,
Por tuas mãos recebi,
Por minha mão supliquei,
Por tuas mãos consegui.

Em minhas mãos, o pedido;
Em tuas mãos, o sentido;
Em minhas mãos, o sufoco;
Por tuas mãos, o alívio louco.

Por minhas insistentes,
Por minhas mãos conscientes,
Por minhas mãos, pedidos comoventes;
Por tuas mãos, respostas coerentes.

Por minhas mãos agradeço,
Por tuas mãos comovidas,
Por tua mão, a resposta da vida.

(Esta poesia foi transformada, por Pedro Flor, em música).
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Lamento I

Chora, coração;
Chora, ilusão;
Chora pela decepção.
Chora, coração;
Chora, ilusão perdida;
Chora pela dor sentida.

Chora, coração;
Chora pelo sofrimento,
Chora pelo sentimento,
Chora pela ingratidão.

Chora, coração;
Chora pedaço meu,
 Que por minhas mãos
O mundo ainda será teu.
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Coletânea poética a nível nacional – Mulher Poeta
Lançamento em 18.06.93, na Casa de Cultura Mário Quintana - Porto Alegre.

Agüenta Coração

Agüenta, coração.
O latejar de tanta emoção.
Agüenta, coração,
E tenta conciliar com a razão.

                                      Às vezes, o coração da gente
Mais parece uma criança inocente.
Outras vezes, se agiganta,
Não conseguindo silenciar
A fala deste ser que tanto o acalanta

Mas em todas as situações
Que a vida apresenta,
Lá está ele, firme,
Resistente,
Numa conformação aparente.

Agüenta, coração,
Agüenta só mais um pouquinho,
Pois preciso muito de ti,
Para prosseguir meu caminho.
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Livro Palavras do Tempo

Capa – Mirtes S.S.Rodrigues
Lançamento - 08.10.1993- aniversário de 20 anos do meu filho Josué.

O mundo e a poesia

Vivo neste mundo com minha poesia.
Vibro no encontro das rimas,
Com apalavra que cala,
O coração que vê
E crê
 Neste mundo complexo,
Corrupto,
Agressor,
Que não oferece a paz, o elemento sonhador.

Por isto,
Vivo e creio na poesia,
Pois, com sua magia,
Corro e percorro o caminho do Amor.
Sonho com o mundo erguido
Pela esperança, pela crença
De um povo que luta,
Na busca da tranqüilidade,
Do sustento,
Pois, entre sorriso e lamento,
Pensa encontrar,
Na realidade do meu verso,
A verdade para todo o nosso universo.Do mundo vou embora,
Quando chegar a hora,
Mas minha poesia fica,
Se não lida, mas escrita.


Por favor, não diga nada


Deixa eu somente te olhar
E imaginar
Teus braços me envolvendo
E por ti, aos poucos, meu corpo cedendo.

Deixa eu falar,
Falar por nós dois,
Pra depois não chorar
Por não ter escutado
Tua voz a me dizer:
Vou sempre te amar.

Deixa eu sonhar,
Sonhar com uma noite de luar,
Esperando tua chegada,
Sentindo-me desejada,
Mas, em teus braços meio acuada,
Com medo de te amar.

Por favor, não diga nada.
Deixa eu somente sonhar,
Acreditar na certeza
De que o grande dia vai chegar.

Por favor, não diga na.
Deixa eu viver este momento,
Nem que seja só em pensamento.

        
(Poesia musicada por Pedro Flor, já gravada em CD).



Antologia Poética – Pulsações Reunidas
Lançamento - 1995
Poetas em nível dos países do Mercosul

Porto Seguro

Te amei com loucura.
Te amei com ternura.
Te amei com o amor da criatura
Que insegura fica
Quando transita
Pelas ruas da ilusão.

E, ao encontrar teu olhar,
Não sente alegria,
Não vê o brilho, nem a poesia,
Somente um rosto sereno,
Pequeno,
Quem sabe triste, por alguma decepção.

Mesmo assim...
Te amei sozinha.
Entreguei-me inteirinha
Ao desejo,
Ao lampejo
Da lembrança
Que meu sonho
Pode ofertar.

Te amei!
Te amo!
Te amarei!
Não importa o tempo:
Passado, presente, futuro.
O que importa
 É este porto seguro
Que é te amar.


  
Livro De Amor e de Sonhos
Capa – Mirtes S.S.Rodrigues
Lançamento - 13 de dezembro de 2002.

De Amor e de Sonhos

Nasci.
Cresci.
Amadureci.
De amor e de sonhos me fortaleci.

Do amor, a construção.
Do sonho, a ilusão.

Do amor, a certeza.
Do sonho, a pureza.

Do amor a criatura;
Dos sonhos, às vezes, a amargura.

Do amor, sempre vou te amar,
Dos sonhos vou continuar
Buscando, a cada dia,
No ser humano a alegria.

De amor e de sonhos,
Minha vida continua
Na certeza de meus passos,
A cada esquina de cada rua.
Sempre crescendo,
Amadurecendo,
Vivendo o amor
Que em mim perpetua.
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Um Rosto


Procurei um rosto.
Procurei um olhar.
Andei por aquele caminho,
Na certeza de te encontrar.

Procurei um rosto.
Procurei um sorriso.
Olhei de mansinho,
Mas não encontrei o que preciso.

Procurei um rosto,
Na espera de um aceno,
Mas senti naquela hora
Que meu mundo é pequeno.

Procurei um rosto.
Encontrei a solidão.
E nesta procura
Machuquei meu coração.

Assim continuei,
Pelas ruas da vida,
Ferida, cansada,
Mas tendo a certeza
De que encontrarei a face esperada.
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Além dos livros, escrevo crônica todas às segundas- feiras, no Jornal O Informativo do Vale, desde 05.06.2000

As múltiplas faces de uma mulher
          Dias atrás, uma amiga, uma profissional muito qualificada, disse que sou uma mulher que exerce várias funções ao mesmo tempo, até citou um livro com o título parecido ao que ela comentou. Recebi isto como um elogio, é claro. Mas depois, sozinha, relembrando nossa conversa, pensei: é verdade, ela tem razão, pois têm dias que parece que os pensamentos vão se enroscar uns nos outros. Mas quantas outras mulheres também possuem estas múltiplas faces! A vida e o dia-a-dia estão repletos delas, onde com coragem, com sensibilidade, são geradoras de novos personagens, os quais, às vezes, são pouco valorizados por aqueles com quem  convivem.
               As mulheres de hoje estão mais “atrevidas”, no bom sentido certamente. As “Amélias” com certeza estão em extinção, a não ser que alguns grupos sociais ou ecológicos tenham interesse em preservá-las.
               Amigo leitor, mesmo com as Amélias em baixo, o papel da mulher está cada vez mais se multiplicando pelas inúmeras funções que ela precisa executar com êxito. As mulheres, normalmente, já acordam trabalhando. São às vezes como patrolas dentro de uma casa e não são reconhecidas pela Secretaria de Obras; entre tantas ocupações, a mulher é faxineira, enfermeira, conselheira, dona de casa, cozinheira, sabe pilotar melhor que o “Felipe Massa” um carrinho de supermercado; sabe ser profissional, mãe, filha, sogra, avó e vódrasta, amiga, esposa amantíssima, sem ter que, necessariamente, usar a sua criatividade de “ótima” atriz.
               Nós mulheres, com certeza, gememos e choramos nossos vales de lágrimas, pois somos, por natureza, muito mais sensíveis do que aqueles, cuja cultura diz que são corajosos, fortes, cheios de “muques e truques”, mas que, na verdade, são tão gente, tão humanos como nós e nos tonteiam, nos enchem de fantasias, de orgulho, de sonhos quando nos apaixonamos. Eles, os homens, são muito mais cautelosos em relação aos sentimentos, mas não os rejeitam e sabem assimilá-los a uma vida tão cheia de preconceitos e machismos. No entanto, se vamos fazer certas perguntas referentes ao comportamento do homem a determinadas mulheres, elas dirão: “são todos iguais, só mudam de endereço”. “Queridos leitores”, não se assustem, pois sabemos que em toda regra há exceção.
               Às vezes, quando navegamos no barco da vida, pelos muitos papéis que desempenhamos, pensamos que nunca encontraremos um porto seguro. Porém, com a chegada da maturidade, somos um pouco mais cautelosas e menos exigentes, pois temos consciência do que queremos realmente e não agimos mais por impulsos. Então conseguimos enxergar o porto, mesmo que este esteja distante, sabemos que poderemos encontrá-lo. E assim, lá vamos nós, tocando nosso barco, vestindo o personagem da vez e usufruindo a vida, enquanto ela estiver disponível.

Paz e bem.
Crônica para dia 24.11.08.Aos leitores, um abraço afetuoso da poeta, cronista, da mulher que sonha com um mundo melhor, com mais justiça, menos violência e da professora que, diariamente espalhas sementes do bem.

Obrigada por tudo.